terça-feira, julho 29, 2025

Intrusa

 


Estou a envelhecer, amadurecer talvez... crescer. E estou numa puberdade terrível, aquele fogo que já não consegue florescer. Não arde, não invade, só fica lá, num canto do meu coração... Um fogo frio.

Ontem estive num workshop. Era um domingo que fugiu um pouco do osso da minha rotina. Fiquei com o domingo na pele, saudades nas mãos e tranquilidade no cabelo. No entanto, precisava quebrar aquele sentimento de sentar e olhar para a janela, do pássaro que me abandonou, olhar para a minha Azorina que também me abandonou, e lembrar dos meus filhos que estão a tornar-se estranhos.

Não quis beber um copo de água para espalhar mensagens pelo sangue. Queria tanto aproveitar esta preguiça, mas o meu cérebro entrou em fase automática, como se estivesse em perigo. Apesar de ter força de leoa, eu senti a vida como uma ovelha negra seguida pelos lobos — lobos de emoções, lobos de materiais, etc.

Naquele dia, só queria abraçar o meu cansaço coletivamente.
Não quis estar em cima do sofá com o portátil, nem olhar para o infinito com o meu copo de chá. Fui à reunião de “Kriola di Força”. Percebi que as mulheres — como todas as pessoas — gostam mais de ver-me a desfilar como uma tigre ou rugir como uma leoa.

Mas, querida “Kriola di Força”,
eu acho que sou humana.

Não quero estar sempre com um soutien a subir os meus peitos às alturas, ou a apertar a minha barriga para acentuar a cintura. Não preciso de estar sempre a dançar ou a gritar poesia para ser Glória Sofia.

Às vezes, gosto do sabor de ser vencida pela rotina, pelos pensamentos.
Eu também sou Glória Sofia quando deixo os meus ombros descaídos ou quando tenho o olhar apagado.
Isso não traduz a minha fraqueza.
E mesmo que fosse, eu tenho direito a ser fraca um dia.
Tenho direito de deixar o meu cabelo livre.
O meu cabelo, a minha história, a minha liberdade, a minha identidade.
É meu, e acolho — assim como acolho o meu cansaço, a minha desilusão, assim como acolho o batuque do meu peito.

Deixem-me andar cansada, com olhos leves e adormecidos,
com os ombros nus e descaídos,
com os meus peitos caídos pelo orgulho de ter alimentado os meus amores.
Deixem-me andar com passos lentos,
pois sabeis que tenho passos estressantes e apressados.

Deixem-me ser livre.
Deixem-me abraçar o meu caminho.
Deixem-me acarinhar a minha solitude.
Deixem os meus olhos quando não veem infinitos.

Deixem-me ser Glória Sofia.
Porque eu sou linda, maravilhosa, cansada, triste ou doente.

Eu sou Glória Sofia.

sábado, julho 16, 2022

Esquecer de mjm


Quero esquecer de mim


Eles acham que a maior prisão do mundo é a língua alheia, andar nos conformes a sociedade estipulou. Obrigam-nos a guardar o escuro, as lágrimas ou eletrões e obrigam-nos a guardar os ruídos das gargalhadas, os beijos ansiados, os erros da poesia, as melodias que acordam o monstro da paixão. Eu acho que eles querem robôs, desfilar pela cidade sobrecarregada de sonhos esquecidos, a exercitar um sorriso cordial, não mostrar muitos o dentes, mas também não escondê-los.


E então eu o encontrei, tentava disfarçar o espanto, a surpresa de ser completamente invadido e mesmo assim com uma reação robótica.


Olho para o sol através das árvores que faziam sombras na nossa cara, desenhava a proibição de qualquer sentimento que possamos possuir no momento . Apreendi bem que não posso inclinar em cima da mesa e beijar-te, um beijo daqueles de segundos. E há melhor forma de dizer que te amo que não seja um beijo fugaz?! 


Talvez goste de viver nessa pressa de amar, de rir, de andar com passos atrapalhados, de falar muito, de suspirar e de chorar quando os teus olhos não tocam-me. 


Contemplo o céu brevemente e depois caio na demora dos teus lábios, não apago o fogo das minhas gargalhadas e deixo escapar: “Já não tenho sonhos”. 

E agora ao re-escrever isso percebi que estou perante a flor mais linda do mundo no jardim da minha vida. Perceber o quanto amor domino e que o silêncio não abraçou-me mesmo quando os braços das palavras ferem-me.


E quando digo que os meus sonhos são todos mortos, espero que olhe ao redor e chame-me de louca. Talvez nem espere que possas nadar no oceano da minha alma. 

Sabes que sempre fui “muda” dos olhos, que sou incapaz de agarrar-te, mesmo que fales dos caules que abracam os troncos e vivem em harmonia, mas eu não sinto a sintonia, sou demasiada incompetente para “lutar” para qualquer emoção. Sou muito infeliz para amar um sedentário e extremamente triste para amar um nomado. Faço como faço com os pirilampos que apanho durante a minha caminhada. Jogo no infinito da noite e espero que brilhem e espero esquecer pelo menos por um tempo mesmo que seja curto, espero que eu possa  esquecer de mim, pelo menos um bocadinho.


Mas tu persiste em cair no meu regaço e dizes-me: “menina porque não tens escrito, escreve por favor”.

sexta-feira, julho 15, 2022

Amarelo













































 “I have to change to stay the same” Willem de Kooning 

Amarelo forte, amarelo que cega-me, amarelo que quebra-me os olhos, amarelo que de qualquer maneira limpa as cinzas das lembranças, amarelo que fez-me lembrar que amava amarelo mas preferia usar azul, azul para encher-me os olhos de choros, azuis para encher-me o céu do peito, azul porque para mim era errado amar amarelo, era errado amar as minhas gargalhadas, era errado sorrir para o mundo, era errado tudo que tocava.

Eu quero correr pelo amarelo, dormir nesta cor de sol, quero abraçar o amarelo, quero casar de amarelo.

Fui para #kunstakademie e como eu ando sempre com amarelo radiante nos lábios, por momento o azul caiu na flor da pele, lembrei que vivi a vida toda no azul quando eu deveria claramente viver no amarelo. Dizem que fui forte, eu acho que fui doida ter andado quase 5 anos a estudar verdes, a resolver a cor da matemática, a morder os lábios na força física quando eu deveria entrar na casa dezena morando lá no amarelo, com as pessoas como eu, louca, doida, esquisitas, dramática, emocionada, oferecidas como disseram a vida toda. 

Eu entrei com amarelo trancado naquele músculo precioso que é preso em qualquer outra cor, sei lá ou talvez melodia. Preso em qualquer coisa e talvez pintada, “emborada” de azul. Levei quase 4 dezenas a ouvir o brilho afiado que feria-me o ser, o saber, a identidade, a musica e até o sexo, para hoje entrar no amarelo e saber que eu pertencia a sol que não queima, que não brilha, que não arde, que não machuca. Eu pertenci ao amarelo que deixava-me carente de romances, de risos escandalosos, de palavras fritas e negras. Passei 4 dezenas para saber que pertencia aquele mundo e hoje saber que aquele mundo não faz mais parte de mim. Eu não posso viver amarelo porque os meus filhos precisam de azuis. Azul és tu sistema, azul és tu que aprisionou-me nesta vida, azul és tu querido que obrigava a esconder-me o meu amor pelo amarelo. Azul eu continuo a escolher-te porque como diz o poeta: “eu pertenço ao amarelo mas tenho de caminhar para as linhas do azul para continuar a ser amarelo.


#kunst #handwerk #kunstakademie #Rotterdam

quarta-feira, julho 15, 2020

"És tu, mulher.

Nas fotos, nas lágrimas
No banho, na preguica,
Nos perfumes e nas cólicas
Menstruais,
Na realidade
Na panela ou na poesia
Na fragilidade de acreditar
Na mentira da paixão.
És tu mulher,
Nos palavroes
Na seducao
Nos risos
Na desilusao
No caminho
Nas flores
Nas músicas
Nas espadas
No espelho
No suspiro
Nos passos
Nos beijos
Nas fantasias
És tu mulher
De calca ganga
De rosa
De caneta
De porno
De liberdade
És tu mulher
De medo
De leveza
De fada
És tu, só falta
Enxergares
Este teu poder"
És mulher e
És mulher de sonho.
Es tu Gloria Sofia
És tu mulher.

MulherioDasLetrasZilaMamede
♀️ Coletivo feminista literário
🙋🏻‍♀️ Regional do @mulheriodasletras_oficial
📚 Responsável pelo Clube de Leitura Mulheres Lendo Mulheres.